Se antes os ringues eram os locais apropriados para pancadaria, as redes sociais, virtualmente, assumem com êxito este papel na atualidade. Mascarada por um pretenso direito de opinião, a intolerância (racial, política, de gênero, para citar algumas) é uma marca visível em muitos posts, imagens e vídeos espalhados pela internet.
As redes sociais são, provavelmente, o elemento mais poderoso da era atual em termos de comunicação. Em menos de duas décadas, a massificação da internet uniu pessoas em diferentes cidades, diferentes estados, em longínquos países. A distância foi abreviada a poucos cliques no computador ou a um deslizar de dedos no smartphone.
Com isso, apps de relacionamento e sites como Facebook e Twitter criaram imensas comunidades virtuais – em que o tema, inevitavelmente, vem do mundo real -, nas quais a informação percorre telas na velocidade da luz. Esta mudança de paradigma acelerou o processo de sociabilização das pessoas na última década. Conhecemos mais indivíduos, tornamo-nos parte de um coletivo, mas permanecemos obedientes ao individualismo.
É precisamente no apego à opinião individual que o ser humano incorre no paradoxo atual da sociabilidade contemporânea: as redes sociais têm o propósito de agregar diferentes correntes de pensamento, que teoricamente encontram no ambiente digital um espaço para discussão. Todavia, esse debate nem sempre é saudável: linhas e mais linhas de comentários carregados de preconceitos aparecem sorrateiros nas timelines.
Não gosta da cantora Anitta? Muita gente concorda, assim como não curte música sertaneja ou samba. É um direito individual, ninguém questiona. Agora, por que atacar a imagem do artista, com xingamentos, apenas por ele representar um movimento ou estilo musical diferente? O mesmo ocorre com outros fenômenos pop contemporâneos, como Pabllo Vittar. Rotular de lixo humano um artista apenas por não concordar com seu estilo musical é rasteiro e preconceituoso.
Em outro exemplo, os escândalos diários envolvendo esquemas de corrupção monopolizam o debate político neste início de 2018. Nunca o Congresso Nacional foi tão criticado pela condescendência com seus parlamentares corruptos, ou o sistema judiciário esteve tão em evidência em posts diários no Facebook. O debate seria saudável se a razão não perdesse espaço para a ignorância. Todavia, o discurso amplificado das redes sociais distorce essa dualidade entre sim e não. O negativo, mais do que nunca, surge como algo ruim, péssimo, capaz de destruir reputações. Obviamente que algumas calúnias terminam em processos na justiça, mas muita coisa continua impune. A internet, com a diversidade de vetores sociais que contém, é o ambiente ideal para a pluralidade de conceitos, ideias e valores. O problema reside na incapacidade que temos de conter as emoções e manter a razão. Afinal, a perfeição é um conceito inatingível para o ser humano. Fonte: Jornal do Comércio.

Leave a Reply